SEPPUKU

切腹

 

Seppuku

 

seppuku

 

O Seppuku (切腹) ou popularmente chamado de Harakiri (腹切り) é o termo formal para o ritual de suicídio. O termo significa literalmente cortar a barriga, estômago ou estripamento. Era cometido, na maioria, por guerreiros, principalmente os Samurais, mas, também por outras classes. O Seppuku Foi um aspecto desenvolvido no Japão feudal (1192-1868) e está intimamente ligado ao 武士道 Bushidô ou Caminho do guerreiro, um conjunto de códigos de éticas desses guerreiros. A origem de ambos está conectada fundamentalmente aos principais segmentos religiosos que influenciaram a cultura nipônica, Budismo, Shintoísmo e ao Confucionismo, e antes do aparecimento do Samurai como uma classe de guerreiro profissional, era totalmente estranha ao japonês.

 

Herdou o alento ao se encarar a morte e o desapego pelas questões materiais do Budismo, a lealdade ao senhor feudal, a relação com a sociedade e a importância da família do Confucionismo e o respeito para com a natureza, local de origem, com o feudo e a estima pela essência, o espírito, que há em tudo do Shintoismo.

 

O Seppuku podia ser feito para recuperar a honra pessoal ou limpar o nome da família, caso essa honra fosse perdida em alguma atitude indigna, evitar ser capturado em campo de batalha ou por pura lealdade ao 大名 Daimyô e acompanhá-lo eternamente.

 

葉隱 No livro Hagakure "Escondido pelas Folhas" ou "Folhas Escondidas", escrito por um Samurai do século XVII, 山本常朝 Tsunetomo Yamamoto, a aceitação resoluta da morte fica clara no trecho: "Descobri que o caminho do Samurai é a morte".

 

seppuku2Dois exemplos claros dessa atitude considerada digna de um guerreiro que segue o Bushidô são visto em relatos de duas épocas distintas. No primeiro Seppuku documentado da história, praticado por 源 頼政 Minamoto No Yorimasa no século XII, até o de 三島由紀夫 Yukio Mishima no século XX, o suicídio por "estripamento", constitui um gesto limítrofe e distintivo do código samuraico.

 

Existem outros relatos históricos de crianças, adolescentes, mulheres e grupos numerosos de Samurais praticando o Seppuku quando o Bushidô o exigia. Mas, a prática do Seppuku se tornou um privilégio do Samurai, ele tinha o direito de usá-lo para se desagravar de uma injustiça, para manter sua honra ou simplesmente para sugerir o caminho correto ao seu superior.

 

Quando o Samurai estava no campo de batalha, eles freqüentemente cometiam o Hara Kiri rapidamente, sem muita preparação formal. Mas, em outras ocasiões, como por exemplo, quando era ordenado pelo senhor feudal ou Shogun, o Seppuku era uma cerimônia muito formal, enquanto requeria certa etiqueta, testemunha e preparação considerável.

 

Era um ritual que seguia sempre a mesma ordem: o Samurai banhava-se para purificar seu corpo e a sua alma. A seguir vestia a roupa específica do Seppuku, totalmente branca, tomava uma xícara de saquê, sempre em dois goles, e a seguir escrevia um ou dois poemas de despedida. Então deveria ajoelhar-se e pegar o tanto-seppukuTantô, Wakizashi ou um punhal, previamente preparado, para enfiar na barriga, no lado esquerdo, e cortá-la então, até o lado direito deixando assim as vísceras expostas para mostrar sua pureza de caráter. O Seppuku era horrivelmente doloroso, mas o Samurai, de acordo com o seu código de honra, não podia demonstrar dor ou medo ao realizá-lo.

 

harakiri1No mundo dos guerreiros, o seppuku era um feito de bravura que era admirado em um Samurai que sabia haver sido derrotado, caído em desgraça ou mortalmente ferido. Significava que ele poderia terminar seus dias com os seus erros apagados e sua reputação não apenas intacta como engrandecida. Porém, o corte do abdômen liberava o espírito do samurai da forma mais dramática, sendo uma forma extremamente dolorosa, lenta e desagradável de morrer. Não raro, o Samurai, após abrir o ventre, permanecia vivo por horas ou mesmo dias, esvaindo-se em sangue e ao mesmo tempo sentindo uma dor indescritível. Por isso, algumas vezes o Samurai tinha a permissão de pedir a um companheiro leal que fosse seu assistente e lhe cortasse a cabeça antes que esta pendesse ou que demonstrasse não estar mais suportando a dor.

 

Kaishaku2O 介錯者 Kaishakunin ou mediador do suicídio, ficava em pé ao lado para executar o 介錯 Kaishaku, um corte no qual o guerreiro seria quase decapitado, então. A manobra deveria ser feita na forma conhecida como 抱首 Dakikubi (pescoço abraçado), na qual o corte tinha que manter uma porção fina da carne prendendo a cabeça, de forma que ficasse pendurada na frente como se abraçasse a mesma. Por causa da precisão necessária para tal manobra, o auxiliar deveria ser um espadachim qualificado. Normalmente o Dakikubi acontecia assim que o punhal fosse mergulhado no abdômen. Eventualmente até mesmo a lâmina foi desnecessária e o Samurai poderia usar algo simbólico como um leque e isto acionaria o golpe mortal do Kaishakunin. O leque foi usado quando o Samurai era muito velho para usar a lâmina, ou em situações onde era muito perigoso dar-lhe uma arma em tais circunstâncias.

 

O Kaishukunin normalmente era, mas não sempre, um amigo. Se um guerreiro derrotado tivesse lutado com honra e astúcia, o oponente podia saudar a sua coragem oferecendo agir como o seu Kaishakunin.

 

Não é fácil ao ocidental compreender essa capacidade de sacrifício do Samurai, sobretudo quando, sabidamente, e num grau pelo menos tão elevado quanto o de qualquer ocidental, o Samurai prezava, a despeito de sua frugalidade espartana, os prazeres e valores da vida. Até mesmo, aos próprios orientais é difícil explicá-la.

 

O samurai não vivia única e eternamente em batalhas e duelos. Sob tais condições é uma verdade segura e cristalina que o destemor da morte e a disposição ilimitada de perder a vida são as precondições para salvá-lo. Em tais casos, a disposição de morrer se confunde com a coragem ilimitada, a bravura produzida pela eliminação total do medo. Entretanto, além de um guerreiro em situações de batalha, onde tais virtudes lhe davam um valor militar reconhecido por todos seus adversários, o Samurai, como homem, exercia outras funções e em todas elas não perdia de vista o seu caminho, o Bushidô:

 

"O bushido é morrer. Se mantiveres teu espírito correto da manhã à noite, acostumado à idéia da morte e resoluto perante ela, e se te considerares com um corpo morto, unificando-te desta forma com o caminho do guerreiro, poderá passar pela vida sem possibilidades de falhares, desempenhando-te corretamente tuas funções"

 

Diz o Hagakure precisamente, "viver consiste em morrer. Em se estar preparado para a morte. Para morrer como um homem. Um homem se reconhece de dar sua vida. Não apenas numa batalha, mas em tudo aquilo que faz. Não apenas na morte - que, para um guerreiro, sobretudo, pode ser o ponto mais alto ou mais baixo de sua vida - mas a cada instante e ato de sua vida."

 

Tal entendimento se filia a um dos preceitos enunciados no "Regulamento" do Daimyô 加藤 清正 Katô Kiyomasa quando sentencia: "Em tudo o que um homem faça deve ter posto o seu coração".

 

É indiscutível, comenta 古川哲史 Furukawa Tesshi buscando o sentido essencial do Bushidô - que "todo ser humano contém em sua constituição um limite supremo que o solicita constantemente (...). Na proporção da intensidade e sinceridade com que um indivíduo corresponde às solicitações desse limite supremo, suas possibilidades são ampliadas e enriquecidas. Um homem pode ampliar e enriquecer as possibilidades de sua existência ao máximo, morrendo a cada manhã, a cada tarde, a cada instante, isto é, mantendo-se permanentemente de frente com o limite máximo de sua existência no mundo" - que é a morte.

 

Aqui chegamos, como freqüentemente sucede ao analisarmos as formulações aparentemente antípodas da sabedoria nipônica, ao encontro e solução dos contrários.

 

É algo bastante conhecido, e igualmente misterioso para o entendimento ocidental corrente, que um dos homens que mais amou a vida, seus encantos e seus valores, dos mais simples aos mais elevados, haja indicado a morte como o verdadeiro caminho da vida. Cristo disse: "Aquele que estiver ansioso por salvar sua vida a perderá e o que estiver disposto a perdê-la a salvará".

 

Por mais diversos, ou até opostos como podem ter sido e foram seus caminhos, o mártir cristão e o grande samurai concordavam com a relação ao preceito ético supremo de uma vida exemplar; não achará a vida quem não buscar a morte, ou mais brandamente enunciado: quem em qualquer causa e ato em que empenha não estiver disposto a dá-la.